Since 1979
19
Mai 08
publicado por Luís Veríssimo, às 12:21link do post | comentar

Bossa Nova


O que seria da Bossa Nova sem a bossa de Vinícius? Provavelmente não seria nada. Vinícius de Moraes (1913 - 1980) não era um mero letrista, foi sobretudo poeta, a par disso foi também músico e intérprete.


A forma como Vinícius se comportava perante as mulheres foi descrita em quase todas as suas letras e em quase todos os seus poemas. Casou 9 vezes e chegou a afirmar o seguinte: "As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.". As letras das músicas seguintes são disso exemplo.









1. Samba em Prelúdio, Vinícius de Moraes, Vinícius e Odete Lara (1963)


Apesar deste álbum ser o segundo da carreira de Vinícius é considerado o primeiro, pois o anterior (de 1956) é apenas a Banda Sonora duma peça de teatro (Orfeu da Conceição peça de 1954). Odete Lara (n. 1929) e Vinícius despontam para a bossa nova com este álbum. As suas vozes roucas são o forte e o chamariz do álbum. Samba em Prelúdio é um samba triste e que de samba tem muito pouco.


1. Samba em Prelúdio



Eu sem você não tenho porquê.

Porque sem você não sei nem chorar,

Sou chama sem luz, jardim sem luar,

Luar sem amor, amor sem se dar.

Eu sem você sou só desamor,

Um barco sem mar, um campo sem flor,

Tristeza que vai, tristeza que vem.

Sem você meu amor eu não sou ninguém.



Ai! Que saudade,

Que vontade de ver renascer nossa vida.

Volta querida

Os meus braços precisam dos teus,

Teus abraços precisam dos meus.

Estou tão sozinho

Tenho os olhos cansados de olhar para o além.

Vem ver a vida.

Sem você meu amor eu não sou ninguém.


 







 2. Deixa, Vinícius de Moraes, De Vinícius e Baden Especialmente Para Ciro Monteiro (1964)



No terceiro álbum da sua carreira, Vinícius colaborou pela segunda vez com Baden Powell (1937 – 2000). Esta colaboração foi uma das mais proveitosas da carreira de ambos. Como o próprio nome indica, este álbum foi dedicado especialmente a Ciro Monteiro (1913 – 1973). Monteiro empresta aqui a sua voz a algumas canções e aos coros de outras. Na música por mim escolhida apenas faz coros.


2. Deixa


Deixa

Fale quem quiser falar, meu bem

Deixa

Deixe o coração falar também

Porque ele tem razão demais quando se queixa

E então a gente deixa, deixa, deixa, deixa

Ninguém vive mais do que uma vez

Deixa

Diz que sim pra não dizer talvez

Deixa A paixão também existe

Deixa

Não me deixes ficar triste



Porque ele tem razão demais quando se queixa

E então a gente deixa, deixa, deixa, deixa

Ninguém vive mais do que uma vez

Deixa

Diz que sim pra não dizer talvez

Mas vê se deixa

A paixão também existe

Deixa

Não me deixes ficar triste

Deixa

A paixão também existe

Deixa

Não me deixes ficar triste


12
Abr 08
publicado por Luís Veríssimo, às 20:30link do post | comentar | ver comentários (1)

E a saga Bossa Nova continua.


Em Fevereiro último levantei nesta saga o problema da Bossa Nova estar ou não a ser reinventada. Indo mais a fundo na questão: se teria os seus dias contados. Para comprovar que a Bossa Nova poderá respirar de alívio trago-vos este mês duas excepcionais cantoras: Bebel Gilberto e Maria Rita. Ambas são filhas de peixe. Ambas estão mais ligadas ao samba. Ambas com voz e corpo muito bonitos. 


 







 1. Um Segundo, Bebel Gilberto, Momento (2007)


Bebel Gilberto (n. 1966) é filha de João Gilberto e Miúcha. Dela apresento-vos a música "Um Segundo" do seu último álbum. Desta música gosto da forma como as palavras estão encadeadas. Sinto que esta música tem uns laivos de jazz, sobretudo lá mais para o final. É uma das melhores músicas deste álbum.


 


1. Um Segundo


De tanto esperar você me ligar

Eu não pude me controlar

Acabei por ligar de novo então

Então te mostrar tudo em vão



Te dou apenas um segundo

Pra me encontrar bem lá no fundo

Pra então me mostrar o que eu não pude ver

O que eu não pude ser



Me dê só mais um segundo

Pra te dizer lá no meu mundo

O que eu não pude mais dizer

Não pude te contar, não pude mais falar



De tanto contar com você pra dançar

Eu não sei mais como levar

Sem ter mais nenhum volume no meu som

Eu não sei como mais cantar



Te dou apenas um segundo

Pra me encontrar lá bem no fundo

Pra me pecar e me rolar, pra me deixar contar

O que eu não sei contar



Te dou apenas um segundo

Pra me dizer baila no fundo

O que não soube te contar, não soube mais falar

Não soube mais cantar...
 


 







2. Pagu, Maria Rita, Maria Rita (2003)


Maria Rita (n. 1977) é filha de Elis Regina e de César Camargo Mariano. Tentou sempre afastar-se da sombra da mãe e até tem conseguido. A versão desta música aqui apresentada é a do primeiro álbum. Tinha Maria Rita na altura uns 26 anos, ainda não tinha a voz bem formada. Agora com 31 anos esta música soa muito melhor.


 


2. Pagu


Mexo, remexo na inquisição

Só quem já morreu na fogueira

Sabe o que é ser carvão

Eu sou pau pra toda obra

Deus dá asas à minha cobra

Minha força não é bruta

Não sou freira nem sou puta



Porque nem toda feiticeira é corcunda

Nem toda brasileira é bunda

Meu peito não é de silicone

Sou mais macho que muito homem




Sou rainha do meu tanque

Sou Pagu indignada no palanque

Fama de porra-louca, tudo bem

Minha mãe é Maria-Ninguém

Não sou actriz-modelo-dançarina

Meu buraco é mais em cima



Porque nem toda feiticeira é corcunda

Nem toda brasileira é bunda

Meu peito não é de silicone

Sou mais macho que muito homem


20
Mar 08
publicado por Luís Veríssimo, às 16:45link do post | comentar | ver comentários (2)

Terceiro episódio da saga Bossa Nova.

Em 1974 Elis Regina (1945 - 1982) e Tom Jobim (1927 - 1994) editaram um álbum em parceria, intitulado apenas Elis & Tom. Elis apesar de ter estado sempre ligada ao samba incursou na Bossa Nova com este álbum. Curiosamente o álbum viria a ser um dos álbuns mais interessantes da Bossa Nova. Com ele foram consagradas diversas músicas, como por exemplo, "Só Tinha de Ser Com Você", "Modinha" ou "Brigas, Nunca Mais". Deixo-vos então aqui duas músicas do álbum:  

 

1. Águas de Março, Elis e Tom

"Águas de Março" tem letra e música de Tom Jobim. Esta canção canta basicamente o fim do Verão e o início do Outono, que no Brasil de dá em Março com a denominada estação das chuvas. Não esquecer que as estações do ano no Brasil são o inverso das estações em Portugal.

1. Águas de Março

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de Março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projecto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de Março fechando o Verão
É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de Março fechando o Verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre treçã
São as águas de Março fechando o Verão
É a promessa de vida no teu coração

...

  

2. Soneto de Separação, Elis e Tom

Este "Soneto de Separação" foi escrito por Vinícius de Moraes. É um poema lindíssimo que foi musicado por Tom Jobim. Sim, é um poema muito triste, pequeno e incisivo. O que é dito nas entre linhas destes versos é absolutamente maravilhoso.

2. Soneto de Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


17
Mar 08
publicado por Luís Veríssimo, às 18:45link do post | comentar | ver comentários (3)

Mar



I



De Todos os cantos do mundo


Amo com um amor mais forte e mais profundo


Aquela praia extasiada e nua,


Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.



II



Cheiro a terra às árvores e o vento


Que a Primavera enche de perfumes


Mas neles só quero e só procuro


A selvagem exalação das ondas


Subindo para os astros como um grito puro.



Sophia de Mello Breyner Andressen


Antologia Mar


5.ª edição


impressão: Outubro, 2004


Editorial Caminho

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29
Fev 08
publicado por Luís Veríssimo, às 12:10link do post | comentar | ver comentários (3)

Finalmente coloco aqui o post mensal sobre a Bossa Nova.


 


 


Um dos grandes problemas da Bossa Nova é a estagnação. O supostamente estar presa aos grandes músicos, compositores, letristas e cantores do passado. E o estar também presa aos grandes hists dos anos 60, 70 e 80. Parece que a Bossa Nova morreu ao chegar aos anos 90. É verdade que actualmente continuam a ser os músicos do passado a reinventar a Bossa Nova. Exemplos disso temos os seguintes:


 







1. Berimbau, Sérgio Mendes, Timeless (2006)


 


Sérgio Mendes (n. 1941) é um veterano na música brasileira, um autêntico dinossauro. Em 2006 editou o álbum Timeless que foi um grande sucesso nos EUA. O álbum contava com as participações entre outros de Erykah Badu, Stevie Wonder, The Black Eyed Peas e Justin Timberlake, vendo por aqui a importância de Mendes nos EUA. A música que escolhi para retratar a reinvenção feita por Sérgio Mendes de grandes hits do passado foi o clássico Berimbau de Baden Powell e Vinícius de Moraes.


1. Berimbau


Quem é homem de bem não trai

O amor que lhe quer seu bem

Quem diz muito que vai, não vai

Assim como não vai, não vem

Quem de dentro de si não sai

Vai morrer sem amar ninguém

O dinheiro de quem não dá

É o trabalho de quem não tem

Capoeira que é bom não cai

E se um dia ele cai, cai bem



Capoeira me mandou dizer que já chegou

Chegou para lutar

Berimbau me confirmaou vai ter briga de amor

Tristeza camará


 







2. Lobo Bobo, Rosa Passos, Amorosa (2004)


O segundo exemplo de reinvenção de grandes clássicos do passado é de Rosa Passos. Rosa Passos (n. 1952) tem uma voz tão deliciosa que se consegue ouvir durante horas a fio sem nos cansarmos. A versão escolhida é Lobo Bobo de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli. Não é oficial, mas diz-se que Bôscoli escreveu esta letra com a namorada Nara Leão, sendo esta o Chapeuzinho e ele o Lobo Bobo, numa referência clara à sua relação amorosa. Diz-se também que a primeira versão da letra era ainda mais clara.


2. Lobo Bobo


Era uma vez um Lobo mau

Que resolveu jantar alguém

Estava sem vintém

Mas arriscou

E logo se estrepou

Um Chapeuzinho de maiô

Ouviu buzina e não parou

Mas lobo mau insiste

E faz cara de triste

Chapeuzinho ouviu

Os conselhos da Vovó

Dizer que não pra Lobo

Que com Lobo não sai só



Lobo canta

Pede, promete tudo, até amor

E diz que fraco de Lobo

É ver o Chapeuzinho de maiô

Chapeuzinho percebeu

Que lobo mau se derreteu

Pra ver você, que Lobo também

Faz papel de bobo

Só posso lhe dizer

Chapeuzinho agora traz

Um Lobo na coleira

Que não janta nunca mais


16
Jan 08
publicado por Luís Veríssimo, às 16:25link do post | comentar | ver comentários (6)

A partir de hoje e mensalmente escreverei aqui algumas linhas e disponibilizarei também uma música  sobre um dos géneros musicais mais interessantes e complexos da música mundial: a Bossa Nova.


 







 


A Bossa Nova é um género musical que pertence ao mesmo tempo a outros dois géneros: MPB (música popular brasileira) e Jazz.


A música mais conhecida deste género é sem sombra de dúvida Garota de Ipanema. Composta em 1962 por António Carlos Jobim (Tom Jobim) e Vinícius de Moraes, também autor da letra. Helô Pinheiro, uma desconhecida na altura, que à época passava frequentemente em frente ao Bar Veloso (hoje Garota de Ipanema) foi a fonte de inspiração. Esta música é também uma das músicas brasileiras mais conhecidas mundialmente, com um infindável número de versões. A versão aqui apresentada tem a voz rouca de Cássia Eller (1962 - 2001).


Fiquem aqui também com a letra:


Olha que coisa mais linda

Mais cheia de graça

É ela, a menina

Que vem e que passa

Num doce balanço

A caminho do mar




Moça do corpo dourado

Do sol de Ipanema

O seu balançado

É mais que um poema

É a coisa mais linda

Que eu já vi passar




Ah, porque estou tão sozinho

Ah, porque tudo é tão triste

Ah, a beleza que existe

A beleza que não é só minha

Que também passa sozinha




Ah, se ela soubesse

Que quando ela passa

O mundo inteirinho

Se enche de graça

E fica mais lindo

Por causa do amor


28
Out 07
publicado por Luís Veríssimo, às 14:09link do post | comentar | ver comentários (1)

O dia 28 de Outubro é para mim o dia mais triste do ano. É-o assim desde 1991. Hoje lembrei-me dos versos que transcrevo de seguida. Flor Sem Tempo, uma das muitas brilhantes músicas de Paulo de Carvalho.




Flor Sem Tempo




Na mesma rua
Na mesma cor
Passava alegre
Sorria amor
Amor nos olhos
Cabelo ao vento
Gestos de prata
Da flor sem tempo
É dela o mundo
É a certeza de viver


Canta o sol
Que tens na alma
És a flor de ser feliz
Olha o mar
Da tarde calma
Ouve o que ele diz


Foi como o vento
Soprou um dia
Passava alegre
Alguém a via
É dela a vida
É a certeza de viver


Canta o sol
Que tens na alma
És a flor de ser feliz
Olha o mar
De tarde calma
Ouve o que ele diz


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