Since 1979
13
Fev 08
publicado por Luís Veríssimo, às 18:00link do post | comentar

«Conheceram-se em 2004 no dia 13 de Fevereiro. Era uma sexta-feira algo gelada. Esse Inverno foi friorento. Véspera do tão temível Valentine's Day. Temível para os "encalhados". Não que isso fosse já um problema sério para ambos. Temível por ser também sexta-feira 13, dia de todos os azares, ou talvez sortes.


Carmensita por essa altura dedicava algum do seu tempo livre à internet e a conhecer rapazes. Andava numa de sexo descartável. Sabia-lhe bem. Adorava usar e ser usada. Mas lá no fundo, no fundo sentia que alguma companhia lhe fazia melhor.


Diogo queria apenas tempo para si. Dedicar-se ao trabalho a todo o custo. O mais importante no momento era a carreira. Mas lá arranjou tempo para dois jantares naquela semana. Um com uma conhecida da internet e outro com amigos.


Combinaram jantar no Restaurante Argentino das Escadinhas do Duque. Marcaram às 20h30 na entrada principal da Estação do Rossio. A hora marcada foi respeitada por ambos, pois ambos são cumpridores dos horários. Carmensita por questões profissionais. Diogo por questões educacionais. Apesar do frio a noite estava límpida e agradável, propícia a encontros amorosos. Ela na altura morava em Benfica e resolveu ir de carro. Não lhe apetecia andar de transportes toda embonecada. E assim teria mais algum tempo para se arranjar. Já ele morava ainda em casa dos pais em Alfama e foi a pé, apesar do frio. Pensou que ir a pé lhe iria fazer bem. Assim poderia desanuviar um pouco a cabeça do trabalho. Lá subiram as Escadinhas do Duque calmamente, como se a vida fosse deliciosa. E sim, a vida sabe às vezes ser deliciosa. Diogo falou pouco, foi comedido em cada palavra que disse. Carmensita já não. É e sempre foi uma fala barato. É muito fácil ter uma conversa com ela. A ele têm que ser por vezes arrancadas as palavras. O restaurante estava apinhado. O que lhes valeu foi que Carmensita havia reservado mesa. O jantar correu-lhes bem. Comeram um delicioso bife de carne de vaca argentina e beberam um bom vinho também argentino. Demoraram-se no jantar, na comida, na bebida. Depois do segundo copo Diogo já estava mais solto. Carmensita não podia abusar muito, pois ainda ia conduzir. Mas abusou... Abusou tanto que convidou Diogo a um copo em sua casa. Este também já abusado de vinho aproveitou e foi. Abusaram sexualmente um do outro. Era o que queriam. Um momento meramente sexual. Deliciaram-se com o suor, o cheiro, a sede, a vontade, dos dois. Depois das delícias estavam ambos cansados e vira-se Diogo muito ensonado para Carmensita:
- Era capaz de dormir abraçado a ti...


- O quê? Estás louco! - respondeu-lhe muito indignada. - Não temos intimidade para essas coisas.


- Vais-me obrigar a ir para casa a estas horas? - eram já 04h.


- Obrigar, obrigar não vou... - Carmensita dá um beijo cínico em Diogo. - Vou apenas expulsar-te literalmente de casa. Apenas isso.


- Como?


- Vá veste-te lá que tenho que descansar.


Atónito e em silêncio Diogo lá se vestiu. Sentiu-se mesmo abusado. Mas afinal não era o que ambos estavam a precisar?»


24
Dez 07
publicado por Luís Veríssimo, às 19:52link do post | comentar

«Chove! Chove lá fora. Ai como chove! As escovas do pára-brisas não param. O barulho no exterior é ensurdecedor. O vento é ensurdecedor. Os trovões são ensurdecedores. O carro pouco os protege. Faz-se sentir algum frio, mesmo com o ar condicionado. Nunca mais chegam ao destino. Já nenhum dos dois suporta tanta demora. A poucos metros vêem os raios a serem engolidos pela terra. A tempestade ameaça-os. A noite está densa e os perigos estão à espreita.
É dia 24 de Dezembro. Aliás é já noite. A noite de consoada. Temos Diogo e Carmensita . Estão já a poucos quilómetros de Fronteira, no Alentejo. Vêm desde Lisboa. Rapidamente se pôs noite. E assim que chegaram ao Alentejo começou a chover e a trovejar. No rádio ouve-se agora um CD de Natal que Diogo fez questão de trazer: The Best Cristmas Album In The World.
Carmensita já não suporta mais aquela tempestade. Está inquieta como o tempo. E a viagem até casa dos seus pais parece estar a demorar uma eternidade. Uma eternidade angustiante. As canções natalícias estão a irritá-la de tal maneira.
Diogo está mudo, tenta conduzir com a maior das cautelas por entre as curvas tortuosas da estrada. Não quer que cheguem atrasados, mas também não quer colocar nenhum dos dois em risco. Amaldiçoar-se-ia se algum mal acontecesse à su Carmensita .
Esta não consegue de maneira nenhuma sossegar. Há qualquer coisa que a aflige. Só não sabe bem o quê. Já nem são as cantorias de Feliz Natal. Não tem medo de trovões, relâmpagos, ou raios. Mas vê-los ali tão próximos tanto a assusta como a fascina. "Quem me dera ter aqui uma máquina fotográfica!", pensa alto distraidamente.
- Que disseste? - pergunta-lhe Diogo.
- Hã ?!? Como? - disse Carmensita.
- Que disseste? Não precebi!
- Não sei! Acho que não disse nada...
- Foi qualquer coisa sobre não teres máquina fotográfica... - insiste Diogo.
- Ah! Era o que estava a pensar... Há uma beleza estranha nos relâmpagos. E apetecia-me fotografá-los. Já reparaste no poder que emanam? - pergunta Carmensita .
- Não estou muito atento aos relâmpagos... Com esta tempestade, preocupa-me mais a estrada. Sabes melhor que eu que estas estradas do Alentejo são muito perigosas. - tenta-se justificar.
- Sim! Claro! Tens razão!
- Mas tenho aí a minha máquina fotográfica... está na minha pasta no banco de trás. - disse por fim Diogo.
- Oh! Já podias ter dito... Para o carro! Quero ir tirar umas fotografias. - barafusta Carmensita.
- Agora? Já estamos atrasados e ainda devemos demorar uma boa meia hora ... - choraminga.
- É só por alguns minutos. Eu tiro umas fotos rápidas e vamos logo embora. - pede Carmensita .
- Mas vais ficar toda molhada... - lamuria.
- Não faz mal! Eu depois seco-me na lareira dos meus pais. Não te esqueças que ainda lá tenho roupas minhas.
- Só se forem vestidinhos às florezinhas de quando eras miúda... - graceja Diogo.
- Vá! Para lá o carro se faz favor. - ordena Carmensita .
- Está bem! Está bem! - Assim que Diogo pára o carro, Carmensita avança pela tempestade adentro de máquina fotográfica em punho. Os únicos flashes que se vêem são os da máquina e os relâmpagos. Passados poucos minutos de estar no exterior Carmensita fica totalmente encharcada . Não só encharcada pela chuva como também pela emoção. A emoção de estar assim tão perto dos raios. Os raios já não ferem a terra, penetram-na, são uma forma de a fertilizarem...
- Sai daí! - implora Diogo. - Vamos embora!
- Sim, vamos já. - Carmensita entra muda no carro. O silêncio agora impera. Diogo desligou finalmente o rádio. Deixa de repente de chover, como que por um passe de mágica. Todo o temporal se desvanece. Raios, trovões e relâmpagos desaparecem do céu. A viagem continua em silêncio, agora bem mais calma. A mão esquerda de Carmensita procura a direita de Diogo, pousada na alavanca de mudanças. Acaricia-lhe as veias salientes. O amor que ambos sentem um pelo outro reflecte-se neste pequeno e simples gesto. Agora sim poderão prosseguir pelos poucos quilómetros que faltam e ir cear tranquilamente como a época o exige.»


mais sobre mim
Janeiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO